Antes de o Google existir como empresa
Em 1997, quando Larry Page e Sergey Brin ainda trabalhavam no projeto que posteriormente se tornaria o Google — oficialmente fundado em 1998 — um professor da Universidade Federal de Minas Gerais já pesquisava, no Brasil, tecnologias para organizar e recuperar grandes volumes de informação.
Seu nome era Nivio Ziviani.
Professor e pesquisador do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, Ziviani construiu sua carreira em uma área que se tornaria fundamental para a internet: recuperação de informação e mecanismos de busca.
Mas sua visão ia além da pesquisa acadêmica.
Ele acreditava que conhecimento produzido dentro da universidade poderia chegar ao mercado e transformar-se em produtos, empresas e impacto econômico.
Da universidade para o mercado
Durante os anos 1990, Ziviani esteve à frente de pesquisas no laboratório da UFMG dedicado ao tratamento e à recuperação de informação.
A ideia era relativamente ousada para aquela época: a pesquisa acadêmica não precisava terminar na publicação de um artigo científico. Ela poderia virar tecnologia.
Foi nesse ambiente que surgiu a Miner Technology Group, criada em 1998 por Ziviani e colaboradores ligados à universidade.
A empresa desenvolveu tecnologias de busca e recuperação de informação e rapidamente chamou a atenção do mercado brasileiro.
No ano seguinte, em 1999, a Miner foi adquirida pelo UOL, em uma operação frequentemente citada como um dos primeiros grandes exemplos brasileiros de transferência de tecnologia acadêmica para o setor privado.
O valor divulgado na época é geralmente apontado em torno de R$ 4 milhões.
Para uma empresa nascida a partir de pesquisas desenvolvidas na universidade, o negócio representava algo muito maior do que uma simples venda.
Era uma demonstração de que pesquisa científica poderia gerar uma empresa competitiva.
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A segunda grande aposta
Ziviani, porém, não parou na Miner.
Ao lado do pesquisador Berthier Ribeiro-Neto, também ligado à UFMG, participou da criação da Akwan Information Technologies.
A empresa desenvolveu tecnologias de busca para a internet e lançou o TodoBR, um mecanismo brasileiro de pesquisa.
A proposta era ambiciosa: construir uma tecnologia de busca capaz de lidar com o crescente volume de informações disponível na web.
E o mercado internacional começou a prestar atenção.
Quando o Google bateu à porta
No início dos anos 2000, a Akwan já havia desenvolvido conhecimento e tecnologia suficientes para despertar o interesse de uma das empresas mais importantes do mundo da internet.
O Google.
Depois de meses de negociações, a Akwan foi adquirida pelo Google em 2005.
O valor da operação não foi divulgado publicamente.
Um dos aspectos mais importantes do negócio foi sua consequência para o Brasil: a aquisição contribuiu diretamente para a criação do Centro de Engenharia do Google em Belo Horizonte, que se tornou um dos principais polos de engenharia da empresa na América Latina.
A escolha de Belo Horizonte não aconteceu por acaso.
O Google estava adquirindo não apenas uma empresa, mas também uma equipe de pesquisadores e engenheiros formada em um ambiente acadêmico que já produzia conhecimento avançado em recuperação de informação.
Uma aquisição que mudou o mapa tecnológico brasileiro
A chegada do Google a Belo Horizonte teve um significado que ultrapassava a própria Akwan.
Até então, o Brasil era visto principalmente como um grande mercado consumidor de tecnologia.
A partir daquele momento, começava a ganhar força uma outra ideia:
o Brasil também poderia produzir tecnologia de ponta para empresas globais.
O centro de engenharia mineiro continuou a crescer ao longo dos anos e permanece como uma presença importante do Google no país.
O laboratório como ponto de partida
A história de Ziviani não terminou com a venda da Akwan.
Ao longo de sua carreira, ele esteve envolvido na criação e no desenvolvimento de diferentes empresas de base tecnológica.
Entre elas está a Neemu, empresa especializada em soluções de busca, recomendação e personalização para comércio eletrônico, posteriormente adquirida pela Linx.
Também está a Kunumi, criada com foco em inteligência artificial.
Aqui, porém, existe uma importante correção em relação a versões que circulam na internet: não é correto afirmar simplesmente que a Kunumi foi adquirida pelo Bradesco em 2022.
O relacionamento entre Bradesco e Kunumi envolveu investimento e parceria estratégica em inteligência artificial, mas isso não deve ser descrito como uma aquisição da empresa pelo banco sem uma fonte específica que sustente essa afirmação.
A ideia do “paper to PIB”
Talvez a parte mais interessante da trajetória de Ziviani esteja justamente na filosofia por trás desses projetos.
Ele popularizou a expressão “paper to PIB”, uma espécie de contraponto à ideia tradicional de que o resultado final da pesquisa científica é apenas um artigo acadêmico.
A expressão resume uma visão simples:
o conhecimento produzido na universidade pode percorrer o caminho que vai do paper ao produto, do produto à empresa e da empresa à geração de riqueza.
Não significa abandonar a ciência básica ou transformar toda pesquisa em negócio.
Significa criar mecanismos para que descobertas e tecnologias desenvolvidas por pesquisadores possam, quando houver potencial, chegar à sociedade.
Quando a universidade deixa de ser apenas o ponto de partida
A trajetória de Nivio Ziviani é particularmente interessante porque conecta três mundos que muitas vezes permanecem separados:
universidade, empreendedorismo e grandes empresas de tecnologia.
Uma pesquisa realizada em um laboratório acadêmico pode dar origem a uma startup.
A startup pode desenvolver uma tecnologia competitiva.
A tecnologia pode ser adquirida por uma multinacional.
E, no processo, conhecimento, pesquisadores e capital podem continuar circulando.
Foi exatamente esse tipo de trajetória que ajudou a transformar Belo Horizonte em um dos importantes polos brasileiros de tecnologia.
Muito mais do que uma história sobre mecanismos de busca
Por isso, a história de Nivio Ziviani não é apenas sobre Miner, Akwan ou Google.
É sobre uma pergunta que continua atual:
quantas pesquisas produzidas hoje dentro das universidades poderiam se transformar em tecnologias, empresas e soluções para a sociedade?
O desafio não é fazer com que toda pesquisa vire uma startup.
É construir uma ponte para que aquelas que possuem potencial não permaneçam confinadas às páginas de um artigo científico.
Porque, em alguns casos, o caminho entre um paper e o PIB pode começar exatamente dentro de um laboratório universitário.

