Uma criança considerada “difícil”
Howard Dully tinha apenas 12 anos quando um médico introduziu um instrumento metálico pelas órbitas de seus olhos e o utilizou para interromper conexões em seus lobos frontais.
Era dezembro de 1960.
Dully havia perdido a mãe biológica ainda criança. Seu pai se casou novamente, e Howard passou a viver com a madrasta.
Segundo o próprio Howard relataria décadas depois, sua infância era marcada por conflitos familiares. Ele era considerado desobediente, tinha problemas de comportamento, sonhava acordado, resistia a algumas regras domésticas e podia ser desafiador.
Hoje, muitos desses comportamentos seriam analisados dentro de um contexto muito mais amplo — incluindo o ambiente familiar, o desenvolvimento infantil e possíveis questões emocionais.
Naquele período, porém, a psiquiatria dispunha de muito menos recursos para compreender esse tipo de situação.
E Howard acabaria pagando um preço extraordinário por isso.
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O médico que acreditava na lobotomia
A madrasta de Howard procurou ajuda médica.
Depois de consultar especialistas, a família chegou até Walter Freeman, um dos médicos que mais contribuíram para popularizar a lobotomia nos Estados Unidos.
Freeman defendia uma técnica particularmente rápida: a lobotomia transorbital.
Em vez de realizar uma cirurgia convencional para abrir o crânio, o procedimento utilizava um instrumento introduzido pela região situada acima do olho, através da órbita, para alcançar o cérebro e interromper conexões nos lobos frontais.
O método ficou conhecido popularmente como “lobotomia do picador de gelo”.
Era uma operação rápida.
E justamente por isso Freeman conseguiu apresentá-la como uma alternativa simples e barata para determinados pacientes.
O problema era que o cérebro não era simples.
O Prêmio Nobel já foi concedido por uma técnica que hoje parece impensável?
O que o prontuário dizia sobre Howard
Décadas depois, ao tentar descobrir por que havia sido submetido à operação, Howard Dully conseguiu acesso ao seu antigo prontuário médico.
E encontrou algo perturbador.
Os registros descreviam seu comportamento com observações como desobediência, comportamento desafiador e tendência a sonhar acordado.
Em determinado momento, Freeman registrou que Howard não respondia adequadamente nem ao amor nem ao castigo.
O prontuário também registrava que o menino dizia “não sei” quando questionado sobre o que estava pensando.
Para Howard, ler aquelas palavras décadas depois significou confrontar uma decisão que havia sido tomada quando ele ainda era uma criança.
“Não conte a ele”
Um dos aspectos mais perturbadores do caso está na documentação da própria cirurgia.
Em 3 de dezembro de 1960, Freeman registrou que os pais haviam decidido pela operação e recomendou que nada fosse contado ao menino.
Duas semanas depois, em 17 de dezembro, Howard Dully foi submetido à lobotomia.
Ele não guardaria uma lembrança clara da cirurgia.
Anos mais tarde, ao examinar seus documentos, encontrou inclusive o registro financeiro do procedimento.
O valor cobrado: US$ 200.
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A vida depois da cirurgia
A operação não resolveu magicamente os problemas de Howard.
Sua vida posterior foi marcada por dificuldades familiares, períodos em instituições e lares temporários e problemas relacionados ao álcool.
Mas é importante fazer uma distinção.
Nem todos os problemas que Howard enfrentou podem ser atribuídos automaticamente à lobotomia. Sua infância já era complicada, e sua trajetória posterior teve muitos fatores envolvidos.
O que a cirurgia representava, porém, era impossível ignorar.
Uma decisão médica havia sido tomada sobre o cérebro de uma criança de 12 anos sem que ela sequer soubesse o que estava prestes a acontecer.
Quarenta anos depois, ele começou a procurar respostas
Howard seguiu a vida.
Na Califórnia, trabalhou como motorista de ônibus.
Mas a pergunta permaneceu.
Por que fizeram isso comigo?
Já adulto, com mais de 50 anos, Howard começou a investigar a própria história com o auxílio de profissionais ligados à produção de rádio.
Ele procurou documentos.
Conversou com familiares.
Investigou a trajetória de Walter Freeman.
E tentou entender o que havia acontecido naquele dezembro de 1960.
Quanto mais descobria, mais difícil ficava aceitar que uma criança pudesse ter sido submetida a uma intervenção cerebral tão radical por razões que hoje parecem profundamente inadequadas.
A história que ele decidiu contar ao mundo
Em 2005, a história de Howard Dully chegou a milhões de pessoas por meio da NPR, que produziu uma reportagem sobre sua busca pelo passado.
A repercussão foi enorme.
Dois anos depois, em 2007, Dully publicou, com o jornalista Charles Fleming, o livro My Lobotomy.
Não era apenas a história de uma cirurgia.
Era a história de um homem tentando reconstruir a própria identidade depois de descobrir que uma parte fundamental de sua vida havia sido decidida por outras pessoas quando ele ainda era incapaz de compreender o que estava acontecendo.
Mais do que uma vítima
Talvez uma das coisas mais marcantes na história de Howard Dully seja justamente sua maneira de olhar para o próprio passado.
Ele não se apresentava como uma pessoa perfeita.
Reconhecia os próprios erros, falava abertamente sobre os períodos difíceis de sua juventude e sobre os problemas que enfrentou ao longo da vida.
Mas também se recusava a permitir que aquela cirurgia definisse completamente quem ele era.
Sua mensagem, em essência, era a de que aquilo que fizeram conosco pode fazer parte da nossa história sem necessariamente determinar o nosso futuro.
Uma história sobre medicina — e sobre autonomia
Howard Dully morreu em 11 de fevereiro de 2025, aos 76 anos.
Sua história permanece como um dos relatos pessoais mais conhecidos sobre os abusos e os excessos associados à era das lobotomias.
Ele foi uma das pessoas mais jovens submetidas por Walter Freeman à lobotomia transorbital.
Mas reduzi-lo a isso seria perder justamente o ponto mais importante de sua história.
Howard Dully passou décadas tentando descobrir por que uma decisão tão definitiva havia sido tomada sobre seu corpo quando ele tinha apenas 12 anos.
Encontrou documentos.
Encontrou respostas.
E, sobretudo, encontrou uma maneira de contar a própria história.
A cirurgia aconteceu em poucos minutos.
As consequências acompanharam Howard por décadas.
E talvez essa seja a parte mais dolorosa de sua história:
quando uma sociedade decide que uma criança é o problema, é preciso ter muito cuidado antes de tentar “consertá-la”.
Às vezes, o que precisa ser consertado não está dentro da criança.
Está ao redor dela.

